Técnicas de preparo de café: Por que não seguir regras rígidas

Barista utilizando técnicas de preparo de café especial.

Se você acompanha o mundo do café especial, sabe que as técnicas de preparo de café costumam vir acompanhadas de conselhos contraditórios: ‘extraia mais’, ‘use WDT’ ou ‘apenas chacoalhe’. Mas será que existe uma regra certa?

A resposta pode surpreender você: não existem regras absolutas no café.

A Armadilha da Certeza no Mundo do Café

Lance Hendrick, barista especializado e criador de conteúdo reconhecido internacionalmente, recentemente compartilhou uma reflexão importante sobre como o excesso de confiança pode transformar conselhos contextuais em dogmas inflexíveis.

Segundo Hendrick, ao longo de sua trajetória, ele percebeu um padrão problemático: sempre que falava com muita certeza sobre determinada técnica – seja tempo de extração, estabilidade térmica, WDT (Weiss Distribution Technique) ou uso de filtros específicos – parte da audiência interpretava essas sugestões como regras universais.

O problema não está nas técnicas em si, mas na forma como a autoridade pode transformar conselhos em mandamentos.

Extração: Uma Ferramenta, Não um Objetivo

Durante um período, Hendrick focou intensamente em extração longa – o processo de dissolver mais compostos solúveis do café moído. A lógica parecia sólida: maior extração poderia resultar em clareza, redução de acidez e melhor equilíbrio.

Mas havia uma contradição incômoda: por que alguns cafés menos extraídos eram genuinamente deliciosos?

Essa questão levou a uma conclusão fundamental: extração é uma ferramenta, não um objetivo final. Mais extração não é automaticamente melhor. Ao testar diferentes técnicas de preparo de café, o que realmente importa é a experiência sensorial na xícara.

Foi dessa reflexão que surgiram abordagens alternativas, como o método “zupa” (uma preparação de espresso com proporções maiores de água e menor pressão). O objetivo não era criar uma nova regra, mas questionar a obsessão pelos números.

A Evolução das Técnicas de Preparo de Café ao Longo dos Anos

Comparação visual entre ferramenta WDT de agulhas e café moído em uma mesa rústica.
A evolução das ferramentas: do WDT à técnica de chacoalhar o porta-filtro.

A história do WDT ilustra perfeitamente como o contexto molda as melhores práticas.

Anos atrás, quando os moedores domésticos produziam café com muitos clumps (aquelas porções de café aglomerado que formam “pedras” de café), o WDT era praticamente essencial para distribuir uniformemente o pó e evitar a canalização da água, formando caminhos preferenciais.

Hoje, com moedores mais modernos que produzem menos aglomerados, técnicas mais simples como chacoalhar o porta-filtro podem oferecer resultados iguais ou superiores com menos trabalho.

Isso parece uma contradição? Na verdade, é evolução. Quando uma técnica nova substitui uma antiga, não significa que a anterior era errada – significa que os problemas mudaram e aprendemos algo novo.

Temperatura e Estabilidade Térmica: Contexto é Tudo

Bancada de café em casa com moedor manual, coador e caderno de anotações.
O laboratório e a vida real: onde a estabilidade térmica realmente importa?

Em ambientes de testes controlados ou em cafeterias que preparam dezenas de shots consecutivos, estabilidade térmica é crucial. Você precisa de temperaturas consistentes para reproduzir resultados e evitar surpresas.

Mas para o usuário doméstico que prepara 1-2 cafés por dia? A consistência importa no contexto doméstico? Depende de quais técnicas de preparo de café você deseja priorizar no seu dia a dia.

Ao avaliar a temperatura, percebemos que as técnicas de preparo de café variam conforme o ambiente, seja em uma cafeteria ou em casa.

Hendrick reconhece que nem sempre separou claramente o que importa em condições de laboratório do que importa no contexto doméstico – uma distinção essencial para aplicar corretamente qualquer conselho.

Por Que Conselhos se Transformam em Regras

Existe uma dinâmica psicológica importante aqui: quando alguém com autoridade fala com confiança, as pessoas naturalmente transformam sugestões em regras.

Não por preguiça ou falta de inteligência, mas porque a certeza sempre parece mais segura que a ambiguidade.

Até elementos visuais como as thumbnails de vídeos contribuem para isso. Frases como “pare de fazer isso” ou “isto muda tudo” são usadas para captar atenção, mas podem ser interpretadas como conclusões definitivas antes mesmo que o conteúdo seja consumido por completo.

O Padrão da Aprendizagem Iterativa

Hendrick identifica um ciclo recorrente em sua própria jornada:

  1. Fixação em uma variável específica
  2. Aprendizado real através de testes e observação
  3. Supervalorização temporária dessa variável
  4. Confronto com a realidade que contradiz a universalidade da regra

Cada ciclo não invalida o aprendizado anterior – apenas refina seu escopo de aplicação.

Por que Técnicas de Preparo de Café Não São Verdades Absolutas

WDT, chacoalhar, alta temperatura, baixa temperatura, puck screen, filtros de papel, filtros específicos – nenhuma dessas ferramentas é intrinsecamente superior ou inferior.

São todas lentes diferentes para observar o mesmo fenômeno. E o café pune o pensamento singular: no momento em que você acredita ter encontrado “a resposta definitiva”, você para de ouvir o próprio café, suas preferências pessoais e novas informações.

Um Framework para Pensar, Não Regras para Seguir

Se você está buscando uma lista de regras infalíveis, esta não é a mensagem certa. O que especialistas como Hendrick oferecem é algo mais valioso: um framework para pensar, testar e mudar de ideia sem ego.

Isso significa:

  • Reconhecer que todo conselho é contextual
  • Testar sugestões no seu próprio equipamento e com seu próprio paladar
  • Estar aberto para ajustar técnicas conforme você aprende
  • Entender que contradições aparentes geralmente refletem evolução, não erros

O Que Realmente Importa no Final

Mãos segurando uma caneca de cerâmica quente com vapor subindo em ambiente acolhedor.
Prepare algo gostoso hoje e aproveite a jornada.

Independentemente se você usa WDT ou chacoalha, se extrai mais ou menos, se busca estabilidade térmica perfeita ou simplesmente liga a máquina, se tem um moedor alinhado com precisão de 0,01mm ou um modelo básico – o único objetivo verdadeiro é preparar algo delicioso.

As técnicas são meios, nunca fins. A jornada do café especial não é sobre seguir regras à risca, mas sobre desenvolver seu próprio entendimento através da experimentação.

Como Hendrick conclui em seus vídeos: não importa como você prepare, o que importa é que você prepare algo gostoso hoje.

Para entender melhor como o equipamento influencia seu resultado, confira nossos guias sobre equipamentos:

Conclusão

A mensagem central deste artigo, baseado nas reflexões de Lance Hendrick, é simples mas profunda: tenha cuidado com certezas absolutas no mundo do café.

Cada conselho que você encontra – incluindo este artigo – deve ser encarado como um ponto de partida para sua própria experimentação, não como uma verdade universal.

O café é uma jornada de descoberta contínua. Quanto mais você aprende, mais percebe que a flexibilidade e a curiosidade são mais valiosas que qualquer técnica específica.

Dominar as técnicas de preparo de café é uma jornada de descoberta contínua.


Fonte: Este artigo foi inspirado no vídeo de Lance Hendrick – I Changed My Mind About Coffee (Here’s Why), que trata sobre como evitar transformar conselhos de café em dogmas inflexíveis. Lance Hendrick é um especialista em café reconhecido internacionalmente, conhecido por seu conteúdo técnico e baseado em testes controlados.

Você já se sentiu confuso com conselhos contraditórios sobre café? Compartilhe sua experiência nos comentários!

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